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domingo, 11 de julho de 2010

Donas do seu nariz, ex-raves de psy riram por último

Desde meus tempos de faculdade que sou fã assumido dos textos do jornalista Camilo Rocha, o lado DJ deste jornalista ainda não tive a oportunidade de ouvir (ainda). Para quem não conhece nenhum desses lados do Camilo pode acessar o blog Bate Estaca e conferir um pouco do trabalho de jornalista o lado DJ pode ser conhecido através do myspace.

Em seus ultimos textos publicados no Bate Estaca, Camilo comenta um pouco sobre a “nova geração” das festas eletrônicas e as tendências dela se converterem em festivais onde se misturam vários tipos de música.

Leia abaixo o artigo: Donas do seu nariz, ex-raves de psy riram por último.

A Tribaltech (foto), festão eletrônico open air, anunciou essa semana a cantora Céu no lineup. A cantora paulistana se junta a nomes como Marcelo D2, Lovefoxxx e Stop Play Moon no elenco do evento que rola no dia 21 de agosto.

Marque esta tendência: cada vez mais, as festas que nasceram como raves de psy vão se convertendo em festivais onde valem vários tipos de música. A XXXPerience de 13 anos, realizada no final do ano passado, se promoveu como um festival. A música ainda era 100% música eletrônica, mas havia muito mais vertentes do que a tradicional dobradinha psy acelerado/low BPM.

APRENDENDO E ENSINANDO

Organizações como, por exemplo, No Limits (parceira dos eventos XXXPerience, Tribaltech e Chemical Music), It’s Magic (Tribe) e Universo Paralello adquiriram ao longo dos anos know-how suficiente em logística e direção artística para ambicionar fazer eventos cada vez maiores.

Ainda têm muito que aprender, pois ainda rolam muitas falhas organizacionais em alguns eventos. Facilidade de estacionamento, organização do trânsito e mais capricho e criatividade na decoração são algumas coisas que podem melhorar.

Mas também têm muito o que ensinar, eu diria até de maneira humilhante, a outras cenas que viraram refém do grande patrocinador. Os novos festivais, ex-raves de trance, nunca dependeram de mega-marcas injetando dinheiro para acontecer. Isso sim é que é ser independente. Também nunca levaram um centavo do governo, que é o que sustenta muito da chamada cena “independente” do rock.

Cresceram organicamente, com força própria. Enquanto outras cenas musicais riam deles e patrocinadores torciam o nariz (não queriam sujar sua marca com a lama da rave…), as festas de psy-trance foram fazendo cada vez mais conta de milhar (no público) e de centena de milhar (no faturamento).

Já numa cena onde os festivais estão atrelados ao super-patrô, se o departamento da marketing da empresa X decidir que a prioridade esse ano é outra, tchau Motomix, Tim Festival, Skol Beats ou Nokia Trends.

NOMES PRÓPRIOS

A independência fica evidente também no nome. Festas como Tribe, XXXPerience, Universo Paralello, Tribaltech, Kaballah e Chemical Music têm orgulhosos nomes próprios, que não são apêndices de uma marca. Nesse sentido, as ex-raves se igualam a eventos europeus como Sonar, Glastonbury, Reading e Melt. O nome do evento é mais forte que o do marca.

Se ainda levarmos em conta que raves e afins passaram anos tomando cacetada (e ainda tomam) da mídia sensacionalista, de prefeitos e vereadores moralistas, juízes, autoridades policiais e outros agentes da lei e da ordem, sua sobrevivência e crescimento parecem ainda mais fenomenais. Coisa digna de aplauso mesmo.

SWU

Como que para coroar esse novo status quo, o festival SWU, talvez o maior de todos os tempos no Brasil, vai ser realizado na Fazenda Maeda, tradicional palco de festas eletrônicas, de incontáveis XXXPeriences e Tribes.

O SWU está propondo algo diferente para o público pop-rock brasileiro, mas muito comum para o frequentador de festival americano ou europeu: acampar por três dias no local do show, esquecendo um pouco do conforto urbanóide em nome da comunhão musical.

Coisa que o povo do trance já faz aqui no Brasil há muito tempo.

Camilo Rocha – Bate estaca

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domingo, 6 de junho de 2010

Mixtape: as origens do trance

Por: Jade Augusto Cola - Rraurl

Portal convida Dave Mothersole para set com raridades das festas em Goa (Índia) nos anos 80; DJ inglês também contou relato da versatilidade dos sons (e das trips) que rolavam por lá

O portal britânico de música eletrônica Bleep.43 publicou no mês de abril um material especial interessantíssimo sobre as origens da psicodelia na música eletrônica e a gênesa da própria música trance.

Trata-se de uma mixtape de 2 horas sobre os sons dos anos 80 que, nas festas open-air de Goa (Índia), ajudaram a fundamentar o hippismo (psy)trance e fundamentaram as raves como as conhecemos hoje. Selecionado e mixado por Dave Mothersale, inglês de destaque na cena tech-house, a mixtape veio acompanhada do relato pessoal de Mothersale (em inglês) sobre suas experiências em duas temporadas de verão na cidade indiana a partir de 1986.

Tanto a mixtape quanto o relato do DJ são interessantes para observar como a dance music dos anos 80 foi a fonte da progressão trance e das viagens psicodélicas que geraram o lado mais xamânico da dance music. New wave, italo, EBM, synth pop, goth, electro, new beat e o dueto house/techno eram pontos de partida para DJs pioneiros como Laurent e Gil para criarem infindáveis horas de música hipnótica, que casavam perfeitamente com a brisa quente e úmida do Oceano Índico.

"Remover os vocais era algo muito importante, já que eles eram uma distração na piração de quem dançava", conta Mothersole, apontando como os edits e as mixagens em fitas K7 e DAT eram o substrato sonoro dos DJs - o calor intenso vetava o uso de vinis, que derretiam. Goa Gil, na ativa até hoje, ainda faz questão de tocar seus intermináveis sets em DAT (saiba mais).


Old Rare Goa Party 2/3 (acredita-se ser este vídeo o único relato na web de Laurent tocando em uma festa de Goa)

O relato de Mothersole é amplo e bem escrito, e não faltam história sobre turistas europeus que mudaram suas vidas para sempre em viagens de ácido líquido e o assombro com aquele tipo de música que surgia ali - um dos personagens seria o tal Dr. Bobby, organizador das festas por lá e que é o pai de Tiga (ele falou sobre Goa ao rraurl em 2009).

A origem de Goa como reduto de freaks remete aos anos 70, em que shows improvisados de rock psicodélico aconteciam em suas praias. Com a fusão perfeita entre sons non-stop e viajandões, a própria cultura psicodélica teve, com a dance music nos anos 80, um desdobramento tão hippie quanto suas próprias origens dos anos 60. A verve mítica indiana, o LSD e a natureza local só contribuiram para a evolução desta cultura e desta música.

TRACKLIST
Podcast 165 - The Roots of Trance
DAVE MOTHERSOLE - BLEEP43.COM

link MP3 original

Trecho: "Muitos dos maiores hits de Goa durante os anos 80 eram re-editados à exaustão, geralmente estirpados vocais indesejados, mas também com as partes rítmicas ganhando extensão. Os re-edits de Laurent para "Living on the Ceiling" (Blancmange), "Hurts" (Boytronic) e "Sex Dwarf" (Soft Cell) são exemplos legendários. Remover os vocais era algo muito importante, já que eles eram uma distração na piração de quem dançava. No entanto, isso dependia do tipo de vocal. Tudo que soava muito pop estava fora, mas cantos mais abstratos eram apreciados, especialmente se tocados em um estilo de voz 'new wave'. Então nomes como Depeche Mode, Psyche e Front 242 eram tocados frequentemente com os vocais intactos, enquanto Den Harrow, por exemplo, não era." (texto original)

01) Syntech - "Discontented" (Hotsound)
02) Nux Nemo - "Hiroshima" (Clip)
03) Neon - "Voices" (Target)
04) Public Relations - "Public Relations" (Another Side)
05) Poesie Noire - "Timber - Instrumental" (Antler)
06) Koto - "Jabdah - Long Version" (Memory)
07) Laser Dance - "Humanoid Invasion" (Hotsound)
08) D'Bop - "Dirty Harry - Instrumental" (Subway)
09) Zwischenfall - "Flucht" (Les Disques Du Crepuscule)
10) Mark Shreeve - "Legion - Razor Mix" (Jive)
11) Bappi Lahiri - "Habiba" (Hi-Hat)
12) Alien Sex Fiend - "The Impossible Mission" (Plagiarism)
13) Laser Cowboys - "Radioactivity - From The Ucraine" (ItaloHeat)
14) Boytronic - "Communicate" (Metronome)
15) Psyche - "Unveiling The Secret - The Razormaid Mix" (New Rose)
16) Chris & Cosey - "Exotika - Remix" (Play It Again Sam)
17) DAF - "Program It - Instrumental" (Dean)
18) New Order - "True Dub" (Factory)
19) 4You - "Dragon Beats" (Durium)
20) Cabaret Voltaire - "Don't Argue - Francois Kevorkian & Micheal Hutchinson Mix" (Manhatan)
21) New Design - "Some Like It Hot" (MG)
22) Sandy Marton - "White Storm In The Jungle" (Ibiza)
23) Jean-Michel Jarre - "Zoolookologie" (Polydor)

FONTE: http://rraurl.com

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

O último que sair, desligue o som

Após quase sete anos, conhecendo pessoas, cidades e aprendendo um pouco mais sobre o mundo eletrônico chegou a hora de “abandonar o barco”. Talvez esteja ficando velho para continuar freqüentando as festas, muito seletivo ou talvez, como diz minha mãe, criando juízo – prefiro acreditar que seja a última opção –.

Já faz alguns meses que perdi a vontade de registrar as festas conhecidas como comerciais. Comecei a freqüentá-las em 2004 e me apaixonei pela cultura que envolvia esse tipo de evento, a paixão foi tão grande que até meu Trabalho de Conclusão de Curso teve como tema principal a cena eletrônica. Durantes esses anos pude assistir projetos como Skazi, Infected írem de ídolos à “chacotas”; presenciei o surgimento de tendas alternativas em um ambiente dominado pelo Full On; ouvi a imprensa divulgar notícias preconceituosas sobre o cenário e acompanhei o “boom” das raves.

Para mim esse ‘crescimento’ teve suas vantagens para o cenário como o surgimento de núcleos sérios e com isso abrindo uma concorrência em busca de se organizar “a melhor festa”, porém surgiram também núcleos formados por pessoas que vêem as festas apenas como uma possibilidade de ganhar dinheiro fácil. Esse boom também foi o responsável pela inclusão de pessoas que viram as raves apenas como um local ‘livre’ para o consumo de drogas, alguns inclusive se vangloriam em redes sociais por terem tomado ‘x’ doces e ‘y’ balas em uma só festa.

 

Atualmente as festas são realizadas em lugares diferentes, possuem diversos nomes, mas as fotos são sempre ‘iguais’. Se colocar minhas ultimas fotos lado a lado, sem alguma identificação de data, cidade ou festa eu mesmo não consigo dizer de qual evento é. As raves tornaram-se um lugar ideal para exibir aquela cueca da Calvin Klein, aqueles mililitros de silicone, o resultado de horas de academia e alguns segundos de aplicação de bomba, aquela fantasia do carnaval passado ou até mesmo aqueles passinhos ensaiados (rebolation, sensualiza). Posso dizer que hoje as festas foram tomadas por uma geração de jovens de muito dinheiro, pouca ideologia e nenhuma consciência.


Hoje em dia não temos mais o argumento de que as raves reúnem milhares de pessoas e não existem brigas, furtos ou coisas do gênero. As pessoas não se importam mais com as outras, antes se alguma pessoa estava sentada no chão era comum alguém parar e perguntar se estava tudo bem ou se queria alguma coisa, agora quando se senta no chão tem que tomar cuidado para não ser pisoteado.

Continuarei freqüentando algumas festas como a Tribal Tech que, na minha opinião, deu um passo importantíssimo, no ano passado quando incluiu um pouco mais de cultura em seus eventos; a Respect que atualmente considero uma das melhores festas, pela organização, line up e principalmente pela magia que ela passa para seu público. Não posso deixar de mencionar os festivais, sejam de três ou sete dias, sejam em São Paulo, Bahia ou Portugal, mas que só quem já esteve em um para entender o que se sente lá dentro.

Gostaria de agradecer a todas as pessoas que conheci durante esses anos – não vou citar nomes, pois com certeza esquecerei alguns – aos núcleos No Limits, Kaballah, T2 por todo o apoio concedido e lógico não poderia de esquecer um vai tomar no ## para todos os “pseudotrancers” que conseguiram fo#d## de vez com essa magia que envolve o cenário.

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Religião: solução ou desculpa

Até que ponto a religião pode servir de pretexto de perseguição e/ou preconceito? Há anos vemos Palestinos e israelenses guerreando por uma "Terra Santa"; atentados são feitos em nome de Deus, Alá... Pessoas, Estados e instituições utilizam o nome de sua fé apenas para seu próprio benefício, acusam outras culturas - sem muitas vezes a conhecerem - e quando são criticadas se dizem vítimas de perseguição religiosa.

No ultimo domingo a Rede Record exibiu em seu programa Domingo Espetacular a matéria "Preconceito religioso nas páginas de O Globo" (veja abaixo). Na qual acusava duramente o jornal carioca por matérias vinculadas sobre o "Dia D". O evento, organizado pela Igreja Universal no dia 21 de abril na cidade do Rio de Janeiro reuniu mais de um milhão de pessoas e causou um verdadeiro caos em grande parte da cidade maravilhosa.

Ônibus tomaram conta das ruas, impedindo que moradores saíssem ou chegassem em suas casas, além do trânsito o evento deixou uma enorme quantidade de lixo nas areias das praias. A organização do evento se defende dizendo que a prefeitura sabia do tamanho do evento, a prefeitura por sua vez afirma que foi anunciado um público de 100 mil pessoas. O que o jornal fez foi mostrar esse caos em suas páginas, a emissora presidida pelo bispo Edir Macedo (dono também da Igreja Universal) se sentiu ofendida e perseguida com algumas palavras e fotos utilizadas nas matérias.

Enquanto assistia a matéria me lembrava de quantas reportagens essa mesma emissora exibiu sobre as festas raves, quantas pessoas elas acusaram de serem usuários de drogas e outras tantas se sentiram vítimas de preconceito apenas por amarem as batidas eletrônicas e sua cultura. Mas quando não se possue uma "religião" para se apoiar fica difícil de se defender.

Será que o Sr. Edir Macedo e outros lideres da emissora pensaram no termo preconceito quando autorizaram a veiculação da reportagem abaixo?

Imagens de adolescentes usando drogas em raves impressionam
Repórter Record publicado em 10/11/2009
Os jovens vão às festas raves para usar drogas. As imagens dos adolescentes tendo alucionações, causadas pelas drogas impressionam.


Há tempos a cultura eletrônica é vitima de perseguição por parte dos "imparciais" jornalistas da emissora paulista. Quem não se lembra da matéria exibida em 2005 na qual apenas um off e cenas pejorativas ilustravam a matéria. Nenhum dos organizadores ou freqüentador foi ouvido (engraçado que essa foi um outro ponto levantado pela record contra o Globo), simplesmente transformaram todas as pessoas em drogados e exibiram a matéria em seu horário nobre

Quando se está "amparado" por uma religião fica fácil de organizar mega eventos, se defender de acusações ou até mesmo enriquecer. Afinal qual político, juiz ou delegado seria capaz de desafiar, correr o risco de perder milhões de votos na próxima eleição, ser chamado de ateu e ser acusado de preconceito religioso. Agora embargar festas de música com batidas repetitivas é fácil, afinal todos os presentes são drogados, a sociedade com certeza irá aprovar.

Será que um dia esses “lideres” religiosos sentirão vergonha na cara e vão parar de usar a religião como desculpa pelas suas atitudes erradas? Como minha mãe diz “o macaco nunca olha o próprio rabo”.

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segunda-feira, 29 de março de 2010

"Não existe droga segura"

Essa semana foi quase impossível achar algo de interessante nas revistas semanais, o julgamento dos Nardoni, invadiram todas as editorias dos principais veículos do país. Alguns inclusive só faltaram crucificar o casal em praça pública. Mas fazer o que…

É isso que o povo gosta, é isso que o povo quer ver. Viva o “panis et circenses”.

Porém na edição 2158 da revista VEJA achei uma excelente entrevista com Nora Volkow. A psquiatra fala sobre as drogas, seus efeitos e vicios.

A diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas afirma que nem mesmo a maconha nem muito menos a DMT, presente no chá do Santo Daime, podem ser consideradas inofensivas

A psiquiatra mexicana Nora Volkow, 54 anos, é uma das mais importantes pesquisadoras sobre drogas no mundo. Quando, porém, o assunto são os danos neurobiológicos que essas substâncias causam, Volkow pode ser considerada a número 1. Foi a psiquiatra quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no cérebro e foi também ela quem, nos anos 80, mostrou que, ao contrário do que se pensava até então, a cocaína é, sim, capaz de viciar. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow esteve no Brasil na semana passada para uma palestra na Universidade Federal de São Paulo. Dias antes de chegar, falou a VEJA, por telefone, de seu escritório em Rockville, próximo a Washington.

Há quinze dias, um cartunista brasileiro e seu filho foram mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como Santo Daime. Que efeitos essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?
Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam esse sintoma, além de aumentar a profundidade e a frequência das alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz.

Que efeitos essas drogas produzem em um cérebro saudável?
Em alguém que não tenha esquizofrenia, os efeitos relacionados com a ansiedade e com a paranoia serão, provavelmente, mais moderados. Não é incomum, porém, que pessoas saudáveis, mas com suscetibilidade maior a tais substâncias, possam vir a desenvolver psicoses.

Estudos conduzidos pela senhora nos anos 80 provaram que a cocaína tinha, sim, a capacidade de viciar o usuário e de causar danos permanentes ao cérebro. Até então, ela era considerada uma droga relativamente "segura". Existe alguma droga que seja segura no que diz respeito à capacidade de viciar e de causar danos à saúde?
Não existe droga segura, a não ser a cafeína. Como ela é estimulante e produz efeitos farmacológicos nos receptores de adenosina, é, sim, uma droga. Mas não há evidências de que vicie nem de que seja tóxica - a não ser que você tenha problemas cardiovasculares. Ainda não sabemos se é prejudicial a crianças e adolescentes, mas para adultos não há nenhum problema.

E a maconha?
Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva. Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes. Estudos feitos em animais mostraram que, expostos ao componente ativo da maconha, o tetraidrocanabinol (THC), eles deixam de produzir seus próprios canabinoides naturais (associados ao controle do apetite, memória e humor). Isso causa desde aumento da ansiedade até perda de memória e depressão. Claro que há pessoas que fumam maconha diariamente por toda a vida sem que sofram consequências negativas, assim como há quem fume cigarros até os 100 anos de idade e não desenvolva câncer de pulmão. Mas até agora não temos como saber quem é tolerante à droga e quem não é. Então, a maconha é, sim, perigosa.

A senhora concorda que ela seja a porta de entrada para outras drogas?
Se você olhar os dados, verá que a maior parte dos usuários de cocaína começou com a maconha. Mas, ao olharmos os dados de quem fuma maconha, veremos que essas pessoas geralmente começaram com cigarros ou álcool. Qual seria a verdadeira droga de entrada, então? Uma das leituras sobre essa questão é que, durante a adolescência, as pessoas bebem e fumam cigarros porque esses produtos estão disponíveis e são legais e, quando crescem, elas se tornam propensas a usar drogas mais pesadas. Uma leitura alternativa é que a exposição à nicotina e ao álcool na juventude faz com que as pessoas fiquem mais vulneráveis aos efeitos de outras drogas. Para mim, essa é a hipótese correta. A exposição precoce às drogas muda a sensibilidade do sistema de recompensa do cérebro. Como esse sistema se torna menos sensível, os dependentes químicos buscam uma compensação nas drogas.

Por que em geral as pessoas começam a usar drogas na adolescência?
O cérebro do adolescente é muito menos conectado do que o de um adulto. Como resultado, os adolescentes não conseguem controlar e regular a intensidade de suas emoções e desejos da mesma forma que os mais velhos. Isso faz com que vivam de maneira mais vigorosa, mas, ao mesmo tempo, assumam riscos maiores, como experimentar drogas.

O uso de drogas na adolescência é mais perigoso do que na vida adulta?
Certamente, porque o cérebro de um adolescente é mais plástico e mais sensível aos estímulos externos que vão moldá-lo. A forma que seu cérebro vai tomar na idade adulta depende muito dos estímulos que você recebeu quando criança e adolescente. O risco de desenvolver o vício também é maior para o adolescente. O motivo é o mesmo: a plasticidade cerebral nessa fase, que faz com que o jovem apreenda informações muito mais facilmente do que o adulto.

Por que é tão difícil quebrar o ciclo de desejo, compulsão e perda de controle que o vício traz?
É difícil porque o cérebro, em consequência do uso de drogas, é modificado de maneira física. A dependência química é uma doença cerebral que muda a bioquímica, a função e a anatomia do cérebro. Ocorre da seguinte maneira: todas as drogas aumentam a concentração de dopamina no cérebro. Quando o sistema dopaminérgico é ativado vez após outra pelo consumo repetido dessas substâncias, ele sofre modificações, de forma que passa a não funcionar mais quando a pessoa não está sob efeito da droga. Com isso, o usuário procura usar mais drogas - para tentar compensar esse déficit.

O que faz alguém se viciar em uma droga?
Isso pode variar de pessoa para pessoa e de acordo com o tipo de droga. Mas, de modo geral, é preciso que a pessoa seja exposta à substância repetidamente. Mesmo nessas condições, nem todos os usuários se viciam. Porém cerca de 10% deles desenvolvem o vício depois de pouco tempo de uso. Nos casos em que isso ocorre, o usuário tem uma vulnerabilidade que pode ser de ordem biológica ou social. Isso significa que ele pode ter uma predisposição genética para o vício ou estar sob algum tipo de stress que ajudou a disparar o gatilho da adição. Os traumas mais potentes ocorrem na infância: abandono, repetidas negligências, abusos físicos, sexuais, convivência com pais presos ou portadores de doenças mentais. Mas é claro que nada disso resulta em vício se a pessoa não tiver acesso às drogas.

É possível curar o vício?
Nós não podemos curá-lo atualmente, apenas tratá-lo. Quando você tem uma infecção bacteriana, toma um antibiótico e está curado. Agora, se você tem asma ou diabetes, tem de tomar algum tipo de medicamento ao longo de sua vida. É um tratamento para sua condição, não uma cura. Hoje, existem apenas tratamentos para o vício, que combinam medicamentos e terapias comportamentais. Estamos desenvolvendo uma vacina contra o vício de cocaína e nicotina, mas são apenas pesquisas ainda.

É possível, depois de se reabilitar, voltar a usar drogas sem se viciar?
Há casos já identificados. Por muito tempo se disse, principalmente sobre o alcoolismo, que, se você é alcoólatra, nunca, mas nunca mesmo, poderá chegar perto de novo da droga. Em pesquisas, há evidências de que alguns alcoólatras conseguem voltar a beber um ou dois copos de vez em quando sem se viciar, mas eles são a minoria. O problema é que não sabemos quem será capaz de se ater a apenas alguns drinques e quem vai se viciar de novo, por isso recomendamos clinicamente que todos fiquem afastados da droga.

Está em curso no Brasil uma campanha para descriminalizar a maconha. A senhora concorda com isso?
Não concordo porque, ao descriminalizar a maconha, você estará contribuindo para que mais gente a consuma. Há quem não fume por medo da repercussão negativa que a atitude pode provocar - e descriminalizá-la significa dizer: "Se você fumar, está tudo bem".

Um grupo de pesquisadores brasileiros está discutindo a possibilidade de permitir o uso medicinal da maconha. Quais são os benefícios já comprovados da droga?
As pesquisas mostram que os canabinoides, inclusive o THC, têm algumas ações terapêuticas úteis. Por exemplo, diminuem a resposta à náusea, o que é muito útil para pacientes com câncer que estão enfrentando uma quimioterapia. Outra vantagem comprovada é que eles aumentam o apetite e podem ajudar a combater a anorexia que acomete pacientes com doenças como a aids, por exemplo. Além disso, podem ter benefícios analgésicos e diminuir a pressão interna do olho, o que pode evitar um glaucoma. O que nosso instituto apregoa é que você pode ter o benefício dos canabinoides sem os efeitos colaterais que resultam do fumo da maconha, como a perda de memória, por exemplo. Por isso, estamos encorajando o desenvolvimento de medicamentos que maximizem as propriedades terapêuticas da droga sem seus efeitos danosos. No mercado americano, já existem algumas pílulas, como a Marinol, que permitem isso.

Em suas pesquisas a senhora descobriu que o córtex orbitofrontal, a principal área do cérebro afetada por quem tem transtorno obsessivo-compulsivo, também está ligado ao vício. É essa a chave da compulsão pelas drogas?
Eu concluí que a pessoa viciada em drogas desenvolve uma obsessão e uma compulsão pela droga similares às daquela que tem transtorno obsessivo-compulsivo. O que o vício e o TOC têm em comum é que ambas as doenças afetam as mesmas áreas do cérebro, aquelas relacionadas aos hábitos e aos controles. Mas, embora o local afetado seja o mesmo e a apresentação dos sintomas se dê de forma parecida, os mecanismos que levam a essas anormalidades não são.

A senhora também estudou a função da dopamina em quem come compulsivamente. Que relações se podem fazer entre a obesidade e o vício em drogas?
Ambos resultam em uma busca compulsiva por uma recompensa: no caso da obesidade é a comida e no caso da adição é a droga. Nos dois, há a perda de controle. Quem é patologicamente obeso come mesmo quando não quer. Podemos dizer que algumas pessoas parecem ser viciadas em comida, embora até o momento isso não tenha sido aceito nas comunidades clínica e científica.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse recentemente que o povo americano tem uma demanda insaciável por drogas. A senhora acredita que essa demanda é mesmo mais intensa nos EUA do que em outros países?
O prazer oriundo das drogas é uma comodidade que você compra, como um luxo. Então há, sem dúvida, um elemento econômico nessa discussão. Também existem elementos relacionados à estrutura social e às normas. Os americanos são mais tolerantes em relação a comportamentos diferentes do que muitos outros povos. Isso resulta também em maior aceitação do uso de drogas.

A senhora nunca sentiu vontade de experimentar alguma droga?
Bebo de vez em quando um copo de vinho e experimentei cigarros quando era adolescente. Nunca usei cocaína, maconha nem outro tipo de droga ilícita. Amo meu cérebro e nunca pensei em estragá-lo.

Por: Kalleo Coura
Fonte: Revista VEJA (ed. 2158 – 29/03/2010)

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domingo, 28 de março de 2010

Trancedownloader.ru de cara nova

Um dos mais tradicionais e conhecidos sites sobre música eletrônica está com data marcada para estreiar um novo visual.

No próximo dia 1º, quem acessar o trancedownloader.ru encontrará um site totalmente remodelado e com várias modificações que irão facilitar a busca pelos albuns.

O administrador do TD, liberou com exclusividade um preview de como será o novo site. Veja abaixo como ficará e no primeiro minuto do dia primeiro acesso o portal para conferir o visual completo.

 

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sábado, 27 de março de 2010

Boom Festival colabora com a ONU

O BOOM FESTIVAL foi convidado pela ONU para fazer parte da United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative (M&E).

A iniciativa foi lançada no dia 22 de Março na cidade de Arendal, Noruega, e contou com a presença dos festivais com melhores programas ambientais em todo o mundo. Apenas 10 festivais foram convidados  pelas Nações Unidas, o BOOM FESTIVAL é o único evento português.

O objectivo da United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative (M&E) – projecto criado pela United Nations Environment Programme (UNEP) - é a de utilizar a popularidade da música para promover a consciência ambiental junto do público.

Segundo as Nações Unidas o BOOM FESTIVAL é encarado como um dos líderes mundiais de soluções sustentáveis para eventos. “O Boom é um case-study junto da ONU”, refere a esse propósito Meegan Jones, autora do primeiro manual sobre sustentabilidade em eventos, “Sustainable Event Management”.

O BOOM FESTIVAL, para além de ser o único evento português a ser convidado pelas Nações Unidas, é também o único festival de cultura independente, sem apoios comerciais, a fazer parte da United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative (M&E).

Do lançamento da iniciativa foram criadas cinco áreas de actuação: Cooperação dos agentes da indústria discográfica (produtores, músicos, produtores de grandes eventos, consultores); Soluções Técnicas; Regulação (Certificação); Recursos (Humanos, Educação); e Audiências (Comunicação, Educação).

O BOOM FESTIVAL convidou a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova para participar na reunião. Através do Vereador da Cultura, Armindo Jacinto, Idanha-a-Nova e a ONU acordaram uma parceria para a criação de um gabinete técnico no Interior de Portugal. O BOOM é assim a força-motriz para novos projectos culturais e ambientais na região da Beira Interior.

O convite do BOOM FESTIVAL à autarquia originou ainda que a data da próxima reunião da United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative (M&E) se realize em Portugal, mais concretamente em Idanha-a-Nova, em Setembro de 2010.

Lista de Participantes na United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative (M&E):

  • BOOM FESTIVAL – Único agente da indústria criativa portuguesa a participar, vencedor do Greener Festival Award 2008 – Outstanding Prize (boomfestival.org)
  • Agderforskning – Organização que desenvolve soluções sustentáveis (agderforskning.no)
  • Munícipio de Arendal – Anfitrião do evento (arendal.kommune.no)
  • Meegan Jones – Autora do livro “Sustainable Event Management” (onde figurou o Boom Festival)
  • Bucks University – Universidade britânica com programa de sustentabilidade ambiental (bucks.ac.uk)
  • Canal Street – Arendal Blues and Jazz Festival (canalstreet.no)
  • CO2Penhagen – Festival dinamarquês com vasto programa ambiental (co2penhagen.com)
  • Festival Republic – Empresa que organiza o Glastonbury Festival (festivalrepublic.com)
  • Hard Rain Project – Série de exposições sobre temática ambiental (hardrainproject.com)
  • Hove Festival – Evento inglês (hovefestival.com)
  • Julie’s Bicycle – Organização inglesa que visa criar standards de sustentabilidade (juliesbicycle.com)
  • Lollapalooza – Festival dos Estados Unidos (lollapalooza.com)
  • Paléo Ridge Festival – Evento histórico da Suiça (paleo.ch)
  • Peats Ridge Festival – Festival da Austrália com inúmeros projectos ambientais (peatsridgefestival.com.au)
  • Roskilde Festival – Maior evento da Escandinávia (roskilde-festival.dk)
  • Studio Incaible – Estúdio do México  (studioincaible.com)
  • UNEP/GRID- Arendal – Delegação da UNEP na Noruega (grida.no)
  • Øya Festival – Maior festival da Noruega (oyafestivalen.com)

Fonte: BOOM Festival Press

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quinta-feira, 25 de março de 2010

As pistas de dança não mentem jamais

Você sabe o que a atriz Luana Piovani, a cantora Alcione e o velocista jamaicano Usain Bolt têm em comum? Ao menos por algumas horas, eles já foram DJs.

Brincar de discotecar virou uma febre, algo quase tão corriqueiro quanto dar palpite sobre a escalação da seleção brasileira. Tanto que o ato de botar músicas em festas ganhou até um verbo específico: "atacar de DJ".

É claro que essa moda já deixou muito DJ profissional enfurecido. Afinal, do jeito que a coisa anda, parece mesmo que ser disc-jóquei não requer nenhum treino ou habilidade. Dá a impressão que é só vestir uma roupa bacana, botar umas músicas no iPod e "agitar a galera".

Uma coisa é certa: atacar de DJ envolve muito menos conhecimento técnico do que, por exemplo, fazer um solo de guitarra. Então, praticamente qualquer um, depois de uma aulinha básica sobre o equipamento de som, consegue trocar músicas numa noitada.

É claro que micos vão acontecer, porque ninguém aprende mixagem - que é a transição de uma música para outra - da noite pro dia. Mas que dá para virar DJ de festinha sem muito treino, isso dá. O sonho de ser o centro das atenções por uma noite é totalmente realizável quando se veste a fantasia de DJ.

O mesmo não vale para alguém que queira se passar por músico aventureiro. Imagine o que seria um famoso "atacando" de baterista ou fazendo um solo vocal numa ópera? Simplesmente impossível.

Está explicada, então, a avalanche de celebridades que trocou a manjada presença ilustre (cobrança de cachê para aparecer em eventos) pelo mais moderno DJ set. Afinal, é muito mais cool aparecer na foto com fone nos ouvidos do que dançando com a debutante, não é?

Também virou moda a profissão ser abraçada por ex-participantes do programa Big Brother. Parece que virar DJ preenche o vazio do ex-BBB, que vê no simples fato de vestir um par de fones de ouvido uma chance de ganhar sobrevida como artista. Agora você sabe a diferença entre "atacar de" e "ser" DJ?

O DJ precisa ser um pouco doente da cabeça, no bom sentido. Tem de pensar em música 24 horas por dia, mas não só na música. Quem vive dessa profissão quer saber como vai conseguir tirar o fôlego da multidão naquela noite - e na seguinte também. Uma apresentação meia-boca já é motivo para entrar em depressão. DJ não se permite errar.

E as viagens, então? Ser DJ é encarar aeroportos com bom humor, pensando na festa que o espera. É nunca mais ter um sábado livre para a família. É estar sempre ansioso com a montanha de música nova que está no HD do laptop esperando para ser ouvida. Vista de perto, a profissão tem bem pouco de glamour e muito de dor de cabeça, isso sim.

Quem entra nessa achando que basta comprar um belo fone de ouvido e baixar músicas para dentro do computador normalmente quebra a cara. A vida do DJ é uma angústia constante pela próxima grande música.

Em meio a essa febre de celebridades que aparecem atacando de DJs, o modelo Jesus Luz acabou ganhando (mais) outros 15 minutos de fama. O namorado brasileiro da Madonna gerou muita revolta entre os profissionais dos toca-discos. Muita gente se doeu quando viu uma foto dele se apresentando numa boate do Sul do País, sendo ajudado por um DJ, escondido embaixo dos equipamentos, na cabine de som.

Jesus Luz foi pego para Cristo, virou bode expiatório desse circo que se formou. Se ele vai tocar bem um dia, só o tempo vai dizer. Para mim, toda essa discussão que ele ajudou a levantar em torno da profissão só pode ser positiva. Afinal, não tem aquela máxima que diz que a publicidade de um produto ruim só acelera o seu fracasso?! Ter apenas uma bela carcaça de DJ não salva a pele de ninguém nessa profissão. A pista de dança não mente jamais.

Por: Claudia Assef
Fonte: estadão.com.br

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

(revista Isto é) Santo Daime liberado

A encruzilhada do Daime

O governo legaliza o uso religioso do chá alucinógeno, mas peca ao deixar que mortes ocorram e ao abrir uma brecha jurídica que pode estimular o tráfico

Tudo começou no início do século passado, no coração da Amazônia. Caboclos nordestinos atraídos pela extração da borracha mergulharam na cultura secular dos povos da floresta, inevitavelmente absorvendo muito de sua essência. Logo nasceram as chamadas religiões ayahuasqueiras, grupos em sua maioria cristãos que incorporaram o consumo de um chá alucinógeno utilizado pelos indígenas em seus rituais. Hoje, essas mesmas seitas estão no centro de uma polêmica que envolve questões delicadas e perigosas, como o respeito à liberdade de crença, tráfico de drogas e morte.

No dia 25 de janeiro, em resolução publicada no “Diário Oficial da União”, o governo brasileiro oficializou o uso religioso do chá ayahuasca – também conhecido como daime, hoasca e vegetal. Sem força de lei, o texto, formulado depois de décadas de negociações e estudos realizados pelos órgãos de combate às drogas, define as responsabilidades das religiões institucionalizadas e garante o direito de consumo do alucinógeno a adultos, mulheres grávidas, jovens e até crianças durante os rituais. Por outro lado, ele veta a comercialização e a propaganda do composto feito a partir do cipó mariri e das folhas da erva chacrona, além de sugerir que qualquer tentativa de turismo motivado pelo chá seja coibida.

A decisão do governo repercutiu com força. Políticos como Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira, por exemplo, defendem a medida. “A resolução é o reconhecimento de uma religião autenticamente brasileira”, diz Suplicy. Por outro lado, outras vozes levantaram a hipótese de que a liberação do daime poderia abrir o perigosíssimo precedente para a criação de religiões que incorporem drogas como a cocaína e a maconha em seus rituais. E ainda há quem considere o trabalho desenvolvido pela comissão multidisciplinar – composta por médicos, juristas, psicólogos e membros de religiões como Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal, entre outros especialistas – do Conad (Conselho Nacional Antidrogas) um exemplo de respeito aos direitos individuais a ser exportado para o mundo. Porém, o noticiário indica outra direção.

No penúltimo final de semana, Alexandre Viana da Silva, 18 anos, morreu afogado em um lago em Ananindeua (PA), depois de tomar o chá em um culto independente. Claro que não é possível afirmar que o alucinógeno levou o rapaz, que não sabia nadar, a enfrentar uma situação de risco sem medir as consequências. Mas a hipótese não pode ser ignorada.

Outra história contundente é a de Fernando Henrique Queiroz Tavares. Aos 15 anos, ele era usuário regular de haxixe, LSD e ecstasy. Depois de muito sofrimento, encontrou ajuda na chácara Céu de Krishna, sede da seita Encantamento dos Sonhos, localizada na região metropolitana de Goiânia (GO). Lá, participou de rituais que envolviam o consumo de ayahuasca durante três anos. “Ele deixou o vício, voltou à escola e até parou de sair à noite”, diz sua mãe, Neila Maria Queiroz. Ela foi duas vezes até a chácara. Na primeira, para assistir a uma das cerimônias. Depois, para alertar a todos que Fernando Henrique sofria da síndrome de Marfan, enfermidade degenerativa do coração.

Por volta das 4h30 da manhã do dia 15 de novembro do ano passado, depois de consumir 150 ml do chá em um intervalo de quatro horas e meia, o rapaz de 18 anos sentiu-se fraco, apresentou dificuldade para respirar e caiu no chão. Segundo seu atestado de óbito, a morte foi causada por um ataque fulminante do coração, com rompimento da artéria aorta. Apesar de o laudo oficial com a causa do ataque só ter previsão de publicação daqui a dois meses, o que a ciência já sabe sobre os efeitos da ayahuasca no organismo indica forte possibilidade de relação entre o consumo do chá e o ocorrido. “Estamos realizando análises sofisticadas e fora do padrão. Precisamos de mais tempo”, afirma Rejane Sena Barcelos, diretora do Instituto de Criminalística Leonardo Rodrigues. Segundo o delegado que cuida do caso, Maurício Massanobu Kai, “se o chá facilitou ou potencializou a morte, o responsável pelo ritual responderá por homicídio doloso”. O delegado fala de Marcelo Henrique Ribeiro, líder do ritual Encantamento dos Sonhos. “Foi como perder um filho”, diz Ribeiro.

Segundo a nova normatização das regras do uso religioso da ayahuasca, as seitas cadastradas pelos órgãos passam a ser totalmente responsáveis pelo que acontece com seus adeptos durante os rituais. Cabe a elas decidir quem está apto ou não, tanto do ponto de vista médico quanto do psicológico, a tomar o chá. Também não há regras de dosagem: quem serve a bebida decide quanto o usuário deverá ingerir. Por fim, a determinação recomenda que todos os participantes permaneçam nas igrejas até o final dos rituais – e dos efeitos alucinógenos do chá.

Não é preciso dizer que o risco de algo dar errado é alto, o que pode transformar o caso em uma questão de saúde pública. Se alguém que começa a frequentar uma academia de ginástica é obrigado a passar por avaliação médica, o mesmo não deveria ser feito por quem consome um alucinógeno? “Assim como em se tratando de qualquer instituição desportiva, de ensino ou recreativa, quem quer que dê causa, por negligência, imprudência ou imperícia, ao prejuízo alheio responderá civil e criminalmente pelos atos que praticar”, diz Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, secretário nacional de Políticas sobre Drogas e secretário executivo do Conad.

O texto publicado no “Diário Oficial” recomenda que as entidades façam uma entrevista com aqueles que forem ingerir o chá pela primeira vez e evitem seu uso por pessoas com transtornos mentais e por usuários de outras drogas. Segundo Enio Staub, secretário do Cefluris – Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo, que reúne as igrejas conhecidas como Santo Daime –, esse primeiro contato é fundamental. “As pessoas que buscam a ayahuasca devem obter informações da origem dos grupos para verificar sua confiabilidade. Temos essa responsabilidade”, diz.

O Santo Daime ganhou notoriedade nos anos 80, quando chegou aos centros urbanos do Sudeste e do Sul do País. Celebridades como Lucélia Santos e Ney Matogrosso entraram para a seita e o perfil de seus seguidores mudou. Era a vez das classes mais abastadas, universitários e todo tipo de profissional entrarem na história. Paralelamente, a União do Vegetal também cresceu rapidamente. Hoje, segundo dados fornecidos pelas duas instituições, o Santo Daime conta com cinco mil associados e visitantes, enquanto a UDV contabiliza cerca de 15.000 sócios. Ambas estão presentes em países como Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Canadá, nos quais, segundo os religiosos, o chá entra de forma totalmente regular. “Não corremos atrás das pessoas. Elas vêm até nós”, diz Flávio Mesquita da Silva, presidente da União do Vegetal.

Mesquita, 54 anos, narra uma história muito parecida com a de inúmeros adeptos do daime. “Consumia todo tipo de droga e bebia muito na adolescência. Conheci a UDV e tudo mudou”, diz. De fato, a promessa da resolução de males como a dependência química e a depressão é um dos maiores chamarizes das seitas. Apesar de a normatização governamental sugerir que o chá não seja usado em conjunto com outras drogas, muitos seguidores fazem isso. A substituição de um vício por outro é altamente condenada pela medicina porque, no fundo, não resolve o problema. Fica a pergunta: o daime é uma droga?

Um dos pilares da argumentação do Conad para a regulamentação do uso religioso da ayahuasca é uma decisão da ONU. “São consideradas drogas ilícitas todas aquelas nas listas de substâncias proibidas das Convenções das Nações Unidas, das quais o Brasil é signatário”, diz Miranda Uchôa, do Conad. De acordo com o texto publicado no “Diário Oficial”, “a decisão da ONU relativa à ayahuasca afirma não ser esta bebida nem as espécies vegetais que a compõem objeto de controle internacional”. Sandro Torres Avelar, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, vê a questão de forma diferente: “O efeito do daime preocupa porque é semelhante ao de drogas proibidas no ordenamento jurídico”, afirma. Infelizmente, uma distorção preocupante do processo já ocorre na internet.

Basta digitar “comprar ayahuasca” no Google para encontrar ofertas de todo tipo. Há quem tente maquiar o comércio usando o modelo das seitas organizadas e peça uma carta do possível comprador na qual ele divida suas angústias e diga por que quer tomar o chá. Depois da análise dos vendedores, sobre a qual não há nenhum controle, o alucinógeno é vendido. Pior: sob os dizeres “Pronto para o consumo e bem concentrado – enviamos para o Brasil e para o mundo”, outra página oferece o litro do chá por R$ 45, mais o Sedex, a quem estiver disposto a pagar por ele. Tráfico puro e simples, portanto, e espiritualidade zero.

A falta de controle do governo preocupa e não para por aí. Além das três religiões institucionalizadas, inúmeros cultos independentes como o frequentado pelo jovem Fernando Henrique, em Goiânia, espalham-se pelo País. Segundo o Conad, cerca de 100 organizações já estão cadastradas. Trata-se de centros espíritas, cultos universalistas e terreiros de umbanda, entre outros, surgidos de dissidências das seitas originais ou que simplesmente incorporaram o uso de ayahuasca em seus ritos.

Diante do quadro de desorganização e alto risco, não espanta que o Cefluris e a União do Vegetal apoiem a normatização do governo e cobrem atitudes que garantam seu direito adquirido. “Acredito que a publicação no “Diário Oficial” servirá principalmente para orientar os órgãos de repressão e fiscalização”, diz o presidente da UDV. “É mais ou menos como se tivéssemos passado 30 anos lutando para dirigir do lado direito da estrada. Agora, alguns que querem partir para a pista da esquerda nos atrapalham”, resume Mesquita da Silva.

Não há dúvida de que as religiões ayahuasqueiras têm os seus méritos. Na apuração desta reportagem, ISTOÉ ouviu histórias comoventes de transformação, que traduzem intenções semelhantes às de crenças seculares como o catolicismo, o islamismo e o judaísmo, para citarmos apenas algumas.

Baterista da formação original dos Engenheiros do Hawaii, Carlos Maltz viveu todos os excessos que a vida de um pop star é capaz de reunir – “do sexo inseguro ao uso de todo tipo de droga. Eu queria morrer jovem”, diz. Hoje, aos 47 anos, ele atua como psicólogo junguiano e é sócio da União do Vegetal em Brasília, onde vive com sua mulher e suas três filhas. Eis a sua história.

“Em 1995, tive uma briga muito feia com o Humberto (Gessinger) e saí da banda. Acabou a fama, acabou a grana e tudo ficou escuro. Fui convidado para ir até a UDV e tomar o chá. Quando vi aquela gente fardada, pensei que não era para mim. Depois de tomar o vegetal, vi várias letras de música passando na minha frente e reconheci o meu estilo no texto. Uma voz me disse: ‘Gostou? É tudo seu.’ Respondi que sim e disse que queria anotar as letras. A voz explicou que eu só conseguiria fazer isso depois que tirasse a mágoa do meu coração e perdoasse o meu parceiro. Explodi e vi que realmente ainda estava magoado. Então a voz me disse que eu deveria compor uma música de amor para o Humberto e que, só depois disso, estaria preparado para evoluir. Hoje somos amigos como nunca, vivo feliz e tenho orgulho do meu trabalho, mas ainda não escrevi a canção.”

Para garantir que histórias como a de Maltz continuem a ser escritas, é preciso muito mais do que normatizar as regras para o uso da ayahuasca em rituais. Se a intenção do governo é legitimar o patrimônio religioso brasileiro, é preciso evitar mortes absurdas e garantir que algo sagrado para alguns não entre para o rol das substâncias que corroem nossa sociedade.

Por: Hélio Gomes
Revista Isto é - 07/02/2010

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sócios esclarecem entrevista de Feio

Comunicado dos sócios da XXXPerience, Érick, Edson e Flávio, a respeito do material que vem sendo veiculado pelo sócio Luis (DJ Feio).

Em razão da entrevista concedida pelo Sr. Luis Guilherme Sala – DJ Feio, junto ao site ebeatz, devemos esclarecer que a XXXPERIENCE não é uma simples parceria, mas trata-se de uma empresa regularmente constituída, conforme palavras do próprio DJ Feio.

Na empresa, representada pela pessoa jurídica “Xxxperience Serviços e Eventos Ltda Epp”, figuram como sócios Paulo Ricardo Corrêa do Amaral (Rica Amaral), Luis Guilherme Sala (Feio), Érick Sanches Dias, Edson Rodrigues Dias e Flávio Oliveira Jaegger.

A sociedade se firmou para que o evento, iniciado em meados de 1996, pudesse crescer e se expandir, exatamente para ter condições de receber um público cada vez maior, como se verifica nas edições atuais.

De fato, existem questões internas que estão passando por discussões entre os sócios, contudo, tais situações não poderiam e não deveriam atingir o público, que é sem dúvida o maior interessado na continuidade deste mega evento desenvolvido pela empresa.

Por este motivo, em respeito ao público, entendemos que este deve ser preservado de questões internas, que devem ser resolvidas por meios próprios, e não através da mídia.

Ao contrário da postura adotada pelo Sr. Luis Guilherme Sala (DJ Feio), acreditamos que o respeito ao público se mostra exatamente pela preservação do evento e pela sua realização dentro dos mais elevados padrões de qualidade e excelência, que sempre foram buscados pela empresa XXXPERIENCE.

Em síntese, as alegações do Sr. Luis Guilherme Sala (DJ Feio) não correspondem à realidade. Mesmo assim, embora seja lamentável a sua postura, gostaríamos de esclarecer que a festa XXXPERIENCE será sempre preservada, independentemente de quem sejam ou venham a ser os seus sócios.

Gostaríamos, ainda, de esclarecer que o evento só tem o porte que tem nos dias atuais devido ao esforço conjunto de todos os sócios da empresa XXXPERIENCE, e não apenas de um ou de dois deles.

Vale lembrar que os sócios Érick Sanches Dias, Edson Rodrigues Dias e Flávio Oliveira Jaegger trabalharam, e têm trabalhado muito para o desenvolvimento de toda a estrutura que cerca a XXXPERIENCE.

Não é nosso objetivo fomentar ainda mais as questões levantadas pelo Sr. Luis Guilherme Sala (DJ Feio), até porque não correspondem à realidade, como já se destacou. De qualquer maneira, nos limitamos apenas em nos desculpar por tal inconveniente.

Vida longa à XXXPERIENCE!!!

Por: Bruna Armani – Grupo No Limits

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DJ Feio abre o jogo e fala sobre o fim da parceria Xxxperience e No Limits

No último sábado, 16/01/2010, Luiz Sala, o dj Feio, lançou uma mensagem de esclarecimento pela Internet anunciando que nem ele, nem o Rica Amaral tocariam nas festas de carnaval da XXXPerience no Sirena (Maresias) e no Green Valley (Santa Catarina). Os idealizadores da XXXPerience, Feio e Rica Amaral, afirmaram que desde o ano passado estariam se separando da No Limits e alegaram que o impasse seria devido aos valores de compra dos 50% que foram dados por eles a produtora para a realização dos eventos.

No dia 09/12/2009, o EBEATZ divulgou aqui uma pequena nota comunicando o fim da parceria entre a produtora It’s Magic e No Limits na realização da Tribe, outra grande festa open air brasileira. Sem muitas explicações, o anúncio caiu como uma surpresa para o público geral, já decepcionado anteriormente com a não realização da tradicional edição de aniversário da Tribe.

A bola da vez agora é a XXXPerience. Para explicar o ocorrido, o EBEATZ entrou em contato com o dj Feio, que se disponibilizou gentilmente para responder algumas perguntas feitas por nós e pelo público. Com o objetivo de esclarecer com toda transparência, essa é a primeira parte que divulgaremos sobre o fim da parceria entre os idealizadores da XXXPerience e a produtora No Limits, assim como a realização das edições de carnaval em Maresias e Santa Catarina. Entramos em contato com as outras partes envolvidas no caso e aguardamos o posicionamento da No Limits, Jeje (TribalTech), o clube Sirena e a Green Valley.

Confira a entrevista na íntegra:

Para contextualizarmos o público, nos fale um pouco sobre o início da XXXPerience. Como ela foi idealizada?
A princípio, o Rica com outros amigos dele há 14 anos resolveram fazer uma festa de musica eletrônica denominada Rave Xxxperience. Depois disso ele veio a me conhecer e começamos a fazer a Rave Xxxperience juntos, sendo que a primeira foi na praia de Maresias, litoral norte paulista, no antigo Bar do Meio em 1996.

Com o sucesso e crescimento do núcleo, o aumento do staff da produção era algo que aconteceria naturalmente. Como surgiu essa parceria com a No Limits? Conte-nos um pouco sobre essa relação. Como era feito esse trabalho?
Nós fomos apresentados a No Limits pelo Junior, um dos antigos donos do Club B.A.S.E, de quem tínhamos a referência de serem muito bons na produção de eventos. Aí fizemos uma festa com eles em Sorocaba e depois fechamos uma parceria de 40% da festa “dados gratuitamente” a eles (Erick, Flavio e Edson) pelo pagamento das produções que iriam realizar para nós. Ao passar do tempo, achamos melhor dar 50% e para isso achamos melhor fazer um contrato, porém no decorrer dos anos os nossos sócios começaram a se associar e produzir outros eventos do mesmo seguimento da XXXPERIENCE, ou seja, eventos de música eletrônica. Eu acho isso desleal, não vejo problema da No Limits crescer e tal, mas o fato é que os donos da No Limits, produtora da XXX, são também sócios da XXX. Moral da história, eles abriram concorrência para eles mesmos, e a partir daí criaram agência de djs, empresa de equipamento de som, etc. Enfim, na minha opinião isso é monopólio, pois lá atrás quando demos as cotas de 50% era para eles produzirem somente a XXX. Por eles terem crescido muito, mudaram muitas coisas sem a nossa aprovação. Começaram a enfiar todos os custos de várias empresas deles nos custos das Xxxperiences, ou seja, quando rolava um prejuízo na XXX, eles recebiam pelas empresas deles, e eu e o Rica pagávamos o prejuízo. Quer dizer, eles nunca perdiam, só ganhavam nas costas dos sócios que “deram gratuitamente”’ esse Know How a eles.

Aparentemente, a sociedade parecia ir muito bem. Após, tantos anos de parceria, qual foi o verdadeiro grande motivo da separação?
Olha, como você disse acima, “’aparentemente” ia bem. Porém, ultimamente eles estavam agindo “’unilateralmente”, não nos pedindo opinião de mais nada. Vim morar em Sorocaba (sede da No Limits) para poder participar mais efetivamente da organização festa, e eu nunca era comunicado das reuniões, que a meu ver é uma falta de respeito dentro de uma sociedade. Inclusive eu e o Rica tivemos que gravar um vídeo que está em nosso poder, expondo tudo e eles afirmando o nosso questionamento a nosso favor, porque eles sempre falavam ‘’y’’ e faziam’’x’’. Então, o grande motivo da separação seria porque eles excluíram o Rica e eu, da situação geral da empresa que nós criamos e demos a eles.

Nos esclareça um pouco mais sobre o episódio das festas previstas para o carnaval no Sirena (Maresias) e no Green Valley. Foi um problema de negócios, relacionamento ou apenas um desencontro de informações? As festas não poderiam ser realizadas sem a autorização sua e a do Rica Amaral? E onde o Jeje (TribalTech) entra nessa história?
No final do ano passado estávamos em negociação de compra ou venda da XXX, mas não houve acordo. Saí de férias com a minha família no natal e ano novo, e de repente, vejo na internet um anúncio de duas festas da XXX no Carnaval, uma no Sirena (praia de Maresias/SP) e outra no Green Valley (Sta.Catarina). Nem eu e o Rica estávamos sabendo dessa parceria com os clubes, mais uma prova de estarem agindo “unilateralmente”, não nos comunicando de nada e o pior, não nos colocando no line-up. Por exemplo, “vou ao show da Madonna, mas ela não vai comparecer”. Inclusive já pedi para o meu advogado informar aos dois clubes que não estamos sabendo dessas duas festas. A meu ver, eles já estão agindo como se tivessem comprado a nossa parte, coisa que não aconteceu, sem contar a falta de ética deles de já terem divulgado tudo sem a nossa participação. Quanto ao Jeje, eu prefiro que vocês falassem com ele, mas até onde eu sei, ele também foi enrolado nessa historia, e acredito que os Clubes também, pois passaram a idéia que estava tudo bem e que logo estaria tudo resolvido, o que não é verdade até esse momento.

Como todos sabem, você junto ao Rica, foram grandes responsáveis pela expansão da cena psytrance no Brasil. Qual o sentimento de vocês em relação ao acontecido? Como vocês estão se posicionando a respeito?
Olha, quando começamos sozinhos, antes da No Limits começar a produzir, fazíamos tudo com amor e respeito ao nosso publico, pois tudo que é feito com amor o dinheiro vem como prêmio. Inclusive com essa pergunta você me lembrou de quando dávamos gratuitamente café da manhã, lembrancinhas, enfim, total respeito ao nosso público. Sempre fui da opinião que já que o público nos dá o maior amor com a presença deles, nós achávamos que além da festa que era nossa obrigação, deveríamos dar algo a mais como agradecimento a sua fidelidade com a XXXPERIENCE. Eu e o Rica estamos muito tristes em ver no que se transformou o nosso sonho e a atitude da No Limits, que ganhou tudo isso de graça, não reconhece.

Daqui pra frente, o que o público deve esperar da XXXPerience? Existe alguma probabilidade do fim do núcleo?
Fim da XXX nunca! Eu e o Rica gostaríamos que tudo isso fosse acertado rapidamente, pois não deixaremos o nosso sonho na mão de quem só pensa no dinheiro. Daqui para frente, queremos saber o que o nosso público quer para as XXX de 2010, pois de nada adianta uma super produção se você não sabe o que o seu público deseja. Afinal de contas, se chegamos até aqui é tudo graças ao nosso público.

Fonte: Ebeatz

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Tribunal de Justiça de SP diz que tocar música em danceteria sem pagar direitos autorais não é crime

Sorocaba - O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu habeas corpus em favor dos sócios da Anzu Club, uma badalada casa noturna em Itu, no interior paulista, por entender que a execução de obras musicais no interior de danceterias sem pagamento de direitos autorais não é crime.

A decisão, dada no fim do ano passado mas só divulgada hoje, abre um novo cenário para o entendimento jurídico que envolve os direitos autorais, segundo o advogado Jaime Rodrigues de Almeida Neto, autor da medida julgada pelo TJ. "O tribunal paulista deu um importante sinal, de que apesar de haver discussão sobre os valores a serem pagos pelos direitos autorais, isso não significa que haja crime, devendo a questão ficar circunscrita ao âmbito civil", explicou.

Para o TJ, a lei penal se destina a reprimir a cópia e reprodução da obra intelectual em prejuízo do artista, não a simples execução de músicas. Nesse caso, a discussão sobre o pagamento dos direitos autorais deve ocorrer na esfera cível. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) informou que entrará com recurso contra a decisão.

O advogado também foi autor de uma ação inédita no Estado de São Paulo contra o órgão, que exigia o pagamento de direitos autorais em músicas tocadas durante festas de casamento. Na época, tanto o caso quanto a sentença, confirmada pelo TJ, ganharam repercussão nacional e serviram de orientação para o julgamento de casos semelhantes.

Fonte: UOL

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Gotan Project

Batizado a partir da inversão das sílabas da palavra "tango", o grupo propõe uma fresca aproximação ao gênero tradicional. O DJ francês Phillippe Cohen-Solal foi o fundador do grupo. Compositor, particularmente de música house, se junta ao suíço Christoph Müller, conhecido das eletrônicas sofisticadas. Em 1995 começam a trabalhar como produtores e engenheiros de som e criam a editora "Ya Basta!".

Em 1998, conhecem o guitarrista e cantor argentino Eduardo Makaroff, que vive na França desde 1990, e como Cohen-Sosal, tem um passado de compositor nas áreas de cinema e televisão. Em Paris, Makaroff é o chefe de orquestra do “Club Tango de la Coupole”.

A união de paixões pela música eletrônica e latino-americana permitiu os primeiros ecos de uma fusão inovadora. Entre 1996 e 2000, os músicos juntam as experiências de Boys from Brazil, PCS Mind Food, Fruit of the Loop ou Stereo Action Unlimited que prefiguram os Gotan Project, ao fundirem a música eletrônica com os sons do Brasil.

A procura de um som para um projeto a três, que incluísse o dub jamaicano e o bandonéon argentino, deu origem à invenção do “cibertango”. Assim, construíram pontes entre ritmos totalmente diferentes, criando uma formação musical radical, remodelando o tango, remetendo sempre à sua beleza original.

 

Texto: Release Oficial

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“Barebacking”: a que ponto chega a estupidez humana

Enquanto autoridades de TODOS os estados se preocupam em embargarem festas eletrônicas, as quais ainda insistem em classificar como um lugar de livre comércio e consumo de drogas, um novo estilo de movimento vem surgindo no país: Barebacking

A reportagem abaixo foi extraída do JB Online e mostra a que ponto chegou a mentalidade de algumas pessoas que acabam deixando de lado a vida para acreditar em um “prazer” inexistente. Em busca desse “prazer” acabam prejudicando a área da saúde do país (que já não anda lá essas coisas) e atrapalhando quem realmente precisa.

'Barebacking' cresce no Brasil e torna-se caso de saúde pública

RIO - “Procuram-se HIVs”. Impresso em um caderno de classificados dos jornais das grandes metrópoles, o anúncio não passaria despercebido. Do ponto de vista conceitual, HIV é uma sigla que desperta interesse e hostilidade, fascínio e medo, compaixão e ódio.

Estigmatizada até então como o acrônimo da morte, ela vem ganhando novos contornos etimológicos devido a um grupo de homens que praticam sexo com homens (os HSH), absolutamente crentes na teoria de que o vírus da Aids, se contraído numa relação sexual, pode trazer benefícios para seu cotidiano, libertando-o, de uma vez por todas, do uso do preservativo, aumentando o prazer, proporcionado uma liberdade só experimentada no auge da revolução sexual, na década de 70.

A teoria foi posta em prática. E tem nome: "barebacking" (derivado da palavra barebackers, usada em rodeios para designar os caubóis que montam a cavalo sem sela ou a pêlo).

O termo ficou conhecido internacionalmente como uma gíria para o sexo sem camisinha, praticado de preferência em grupo, em festas fechadas, por homens sorodiscordantes (HIVs positivos e negativos).

“Coisa de macho”, garantem os adeptos. O movimento cresce no Brasil, de forma assustadora, e tornou-se uma questão de saúde pública e motivo de preocupação social.

O Jornal do Brasil teve passe livre em dois desses encontros, batizados de bare party (festa bare).

É a primeira vez que um veículo de comunicação ingressa em reuniões nas quais o leitmotiv, ou fetiche, é praticar sexo com pessoas desconhecidas, que possam, acima de tudo, ser soropositivas. Às cegas, todos são guiados apenas pelo que sentem. E, para facilitar a comunicação, criaram um vocabulário próprio.

Festa da conversão

As orgias são chamadas de conversion parties ou roleta-russa. Entre os convidados, há os bug chasers (caçadores de vírus), o HIV negativo, que se lança ao sexo sem camisinha, e os gift givers (presenteadores), os soropositivos que se dispõem a contaminar um negativo.

São esses os responsáveis por entregar o gift (presente), o vírus. Quem participa de encontros bare confirma: o prazer sem barreiras é o que importa. Quanto à Aids, eles não encaram mais a doença como mortal, porém crônica, com tratamento à base do coquetel.

A contaminação, portanto, elimina o medo e apresenta uma perspectiva futura da naturalidade do contato pleno.

– Sou um barebacker assumido – dispara R. H., 31 anos, geógrafo e cientista social, com pós-graduação nas duas áreas.

– Eu odeio camisinha. Acho uma m... É terrível interromper o sexo para colocá-la. Acaba com o meu prazer. No mais, o bare, para mim, é um fetiche. Eu gosto, apesar de ter contraído o vírus da Aids numa festa. Mesmo assim, faria tudo de novo. Não me arrependo.

A declaração aterroriza, preocupa. E só mesmo ingressando no singular mundo dos barebackers para comprovar o que depoimentos, documentários, teses, livros e outros elementos que abordam o tema tentam desvendar ou explicar.

Na maioria das vezes, não conseguem. O que se testemunha numa festa bare está além da imaginação humana, supera os delírios e o surrealismo de Fellini em obras como Satyricon, ultrapassa a sordidez e o ceticismo pasoliniano em Saló ou 120 dias de Sodoma. Não há limites. De verdade.

A constatação pôde ser feita em encontros programados para homens de grupos sociais distintos. Na Ipanema da bossa nova, de gente chique “pulverizada” de Dior, Prada, Gucci, Kenzo, Gaultier e Armani, a reunião começa às 22h num casarão de uma das mais movimentadas e conhecidas ruas do bairro.

A mansão, de três andares, é fechada especialmente para a ocasião. O décor é sofisticado. No primeiro pavimento, paredes brancas contrastam com sofás vermelhos. TVs de plasma 42' exibem clipes de Madonna, Beyoncé, Cher, Christina Aguilera ou filmes com astros e estrelas de Hollywood.

As luminárias brancas rebatem a luz dicróica contra a parede, gerando clima de aconchego, e o bar, com bebidas importadas em sua maioria, está sempre livre. Ninguém fica sobre balcão. Não há tumulto. Claro, é uma festa para pessoas escolhidas a dedo, para poucos, no máximo 60 convidados, informados por e-mail.

Há regras, e elas são claras. É condição sine qua non ficar nu ou no, máximo, com uma toalha (cedida pela produção do evento) amarrada na cintura. Quem se recusa é convidado a se retirar.

Outra exigência: o sexo tem de ser praticado nos ambientes comuns de convivência. Ou seja, nada de se trancar em banheiro, em cozinha, em quarto. Ali, todos estão para ver e serem vistos.

E o ritual começa na entrada, quando os participantes tiram a roupa e guardam as peças em um armário, trancado com chave numerada. O funcionamento é semelhante ao de termas, masculinas ou femininas.

A medida, na verdade, serve para evitar a circulação com dinheiro e cartões de crédito. É precaução. Os que desejam consumir bebidas ou aperitivos, apenas transmitem ao barman o número assinalado na chave.

Os itens são lançados no computador e, no fim da festa, a conta é paga no caixa. O mecanismo lembra o adotado por boates e bares do eixo Rio–São Paulo, com suas tradicionais cartelas de consumação mínima. Só que numa festa bare, a bebida ajuda, os petiscos “fortalecem”, mas não são peças-chave para o divertimento.

Circulando pelos outros andares, a prova: na sala de vídeo, um jovem de cerca de 20 anos se entrega ao prazer, cercado por três homens.

Nenhum deles usa preservativo. A cena é chocante. O rodízio de papéis, durante o ato sexual, é comum nessas festas. Faz parte do jogo. O quarteto não frustra as expectativas dos voyeurs reunidos na porta da sala.

Como “astros do sexo”, diante de câmeras e de uma equipe de produção, atuam com vontade em uma performance longa, nada convencional, sem limites. Quem se propõe a ficar sob os holofotes sabe o risco que corre.

Mas é a sensação de perceber a adrenalina disparar e o coração bater aceleradamente devido ao unsafe sex (sexo inseguro) sem pudores e em público que os impulsiona.

Um deles podia ser gift giver e os outros bug chasers. Ou vice-versa. A probabilidade de o gift (o vírus) estar ali, entre eles, era grande. Ninguém se importava.

Quando terminou a primeira das muitas rodadas de sexo, o boy toy lover (brinquedo sexual) do trio foi jogar paciência em um dos quatro computadores, com internet liberada, instalados no segundo andar.

– As pessoas perdem a noção do perigo em busca do prazer – explica Jorge Eurico Ribeiro, 40 anos, coordenador de Estudos Clínicos da Fiocruz.

– E o conceito de barebacking se perdeu. Originária da Califórnia, a proposta é a de festas em que um ou mais participantes, sabidamente positivos, são convocados por um produtor para praticar sexo com os convidados sem o uso de preservativos. Todos têm ciência de que, na reunião, há portadores de HIV. O fetiche consiste exatamente na possibilidade de contrair ou não o vírus. Só que, atualmente, há quem acredite que as festas bare são simplesmente um evento para o sexo sem camisinha com participantes negativos, o que é um grande equívoco.

Ribeiro analisa que os barebackers que não apresentam o raciocínio da conversão imaginam, de fato, que, uma vez soronegativos, se limitarem seus relacionamentos com pessoas igualmente soronegativas, estarão fora do risco. Definitivamente não estão.

Há o espaço de tempo de variável (conhecido como janela imunológica) em que um indivíduo já contaminado pelo HIV pode ter resultados de exames laboratoriais de soronegatividade, ou seja, resultados falso-negativos. Testes HIV não são tão matemáticos como se supõe.

No Brasil, o obscuro universo do barebacking é pouco discutido publicamente por especialistas em sexualidade humana. Ainda não há estudo com precisão estatística sobre o número de praticantes, independente de orientação sexual.

No entanto, os relatórios do Ministério da Saúde com dados de infectados pelo HIV, de 1980 a junho de 2008, dão a pista. Os casos acumulados de Aids no país nesse período foram 506.499. Desses, 333.485 (66%) são homens e 172.995 (34%), mulheres. Em 2007, registraram-se 33.689 novos portadores.

Homo, bi ou hetero, todos praticaram sexo sem camisinha. A irresponsabilidade tem preço. E alto. Dos cofres públicos do governo federal saem cerca de R$ 1 bilhão por ano para tratamento exclusivo de soropositivos. Um paciente consome de R$ 5.300 a R$ 26.700 por ano. Cerca de 20 mil pessoas infectadas iniciam tratamento com anti-retrovirais no país, anualmente.

– Sinceramente, não me preocupo com essa questão e nem me sinto culpado. Não estou nem aí em ser um ônus para o governo – enfatiza R. H.

O Federal Health Research (centro de pesquisas de saúde), órgão governamental americano, divulgou recentemente a informação de que muitos homens com comportamento homossexual, bem como agentes de prevenção contra o HIV, confirmaram que a prática de sexo inseguro está se tornando cada vez mais comum.

Um estudo com 554 homens assumidamente homo ou bissexuais, residentes na Califórnia, apontou que 70% estavam familiarizados com o termo barebacking e que 14% já o haviam praticado, muitos em relacionamentos extraconjugais.

De acordo com a pesquisa, dos homens HIV positivos que participaram do estudo, 22% declararam ser barebackers e 10% dos negativos também tinham feito sexo inseguro nos últimos dois anos.

Não há informações sobre qual o número de pessoas em geral (homo, bi ou hetero) que pratica sexo inseguro nem sobre que motivos as levariam à auto-exposição.

Interesse dos jovens

Nas principais metrópoles, o fenômeno tem chamado a atenção de jovens. Comunidades sobre o tema se espalham por sites de relacionamento como o Orkut. No Rio e em São Paulo, a adesão ganha força.

Na indústria pornô, os filmes bare são os mais procurados. No YouTube, as postagens com cenas de sexo sem o uso de preservativos lideram o ranking das mais assistidas. Muitos dos que não praticam ou não têm coragem para fazê-lo buscam o prazer lançando mão de DVDs ou de vídeos na internet. O conceito de barebacking se dissemina.

– Colocar-se frente à possibilidade de contágio do HIV por meio do barebacking traz motivações psicológicas que podem ir do sadismo ao masoquismo. A possibilidade de uma relação sexual mais livre, com maior contato íntimo e afetivo pode estar encobrindo uma caráter suicida – avalia Paulo Bonança, sexólogo e psicólogo, membro da Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana e da Associação Brasileira para o Estudo da Inadequação Sexual.

Risco assumido

HIV positivo, o administrador T.W., 45 anos, ratifica a análise de Bonança. Para ele, os adeptos do movimento sabem os riscos da superexposição e, alguns, ressalta, desejam o contágio conscientemente:

– Quem pratica sexo sem preservativo não pode ser considerado ingênuo. Tenho um amigo casado com soropositivo. Ele pediu ao parceiro que o contaminasse. Disse que era por solidariedade, mas acho que é masoquismo.

As observações de Bonança e T.W. foram comprovadas pelo JB em outra festa com a mesma proposta. Dessa vez, na Zona Oeste, a mais de 60 km da reunião em Ipanema.

O encontro, realizado mensalmente em um sítio, é batizado de Vale Tudo e está em sua 17ª edição. De sunga, de cueca ou nus, exigência para entrar, os participantes se divertem ao som de funk. Dos inocentes à la Perlla aos proibidões, compostos pela “galera da comunidade”. Agora não há TVs de plasma, luz ambiente, bebidas ou petiscos sofisticados. Computador?

Nem pensar. É uma zona praticamente rural. O bar improvisado oferece cerveja em latão, sopa de ervilha, salsichão na brasa, batata frita na hora e campari. O sexo, claro, também é praticado sem timidez.

Na varanda do casarão, na sala, nos quartos, na piscina, na grama. O produtor avisa, na entrada, que os preservativos estão disponíveis.

Percebe-se o zelo pela prevenção. A maioria, no entanto, dispensa, sobretudo em se tratando de sexo oral.

As situações são muito parecidas com as da festa na Zona Sul. Geralmente, dois dão o sinal verde e, em poucos instantes, como num formigueiro, três, quatro, cinco ou dez estão reunidos em busca do prazer.

Há um ano e meio, Igor (codinome de J.C., 42 anos, professor dos ensinos fundamental e médio) produz em sociedade com Renato (A.F, 40 anos, militar), a Vale Tudo.

Garante que o encontro não incentiva o bare, é freqüentado só por maiores e que o uso de drogas é proibido. Esses são dois de cerca de 20 itens de uma espécie de manual enviado por e-mail aos convidados.

Ainda está registrado na mensagem:

- Sexo liberal entre todos. A formação de casais ou grupinhos é censurada. Estamos numa orgia e não num consultório matrimonial.

– Menor, cocaína, ecstasy, crack, maconha ou qualquer outra droga são vetados. Mas sempre há os que usam discretamente. Como posso controlar o que os convidados fazem? Se eu vir, peço que se retirem. Mas não vou colocar seguranças. Isso desconfiguraria a proposta da festa. São adultos. Cada um é responsável por seus atos – frisa Igor.

Mesmo sem ser em orgia, quem não usa proteção é 'barebacker'

A prática do sexo sem o uso de preservativo continua a conquistar novos adeptos. As campanhas milionárias do Ministério da Saúde sobre o tema não têm sido lá tão eficazes como deveriam.

E apesar do conceito de barebacking estar associado a orgias freqüentadas por homens que praticam sexo com homens, qualquer pessoa, independentemente de orientação sexual, que busca o prazer sem lançar mão de camisinha é um barebacker.

Também corre o risco de ser infectado, ainda que não seja um participante assíduo das conversion parties, as polêmicas e inconseqüentes festas de roleta-russa, nas quais os convidados brincam com a possibilidade de contrair o vírus HIV.

- Como expliquei, a conceituação de barebacking se transformou ao longo dos anos – ressalta Jorge Eurico Ribeiro, coordenador de Estudos Clínicos da Fiocruz.

– Todos os que praticam sexo sem preservativo, seja homo, bissexual ou hetero, podem ser considerados, atualmente, um bare.

Risco permanente

Ribeiro destaca a necessidade de de todos os que se lançam ao sexo sem camisinhas refletir sobre o polêmico tema e as conseqüências da prática. Os familiarizados com o termo e o movimento partem para o simples "sou contra" ou "sou a favor", estabelecendo-se, assim, dois lados que se mostram inconciliáveis justamente pela falta de consenso sobre a inconseqüência com que muitos homens praticam o unsafe sex. A discussão vai além.

- É importante se informar, pensar e decidir o que se pretende com isso. Ter uma vida saudável passa longe do exercício do bare. A decisão, claro, é exclusivamente pessoal. Da mesma forma que escolheram a orientação sexual, podem assim decidir o que fazer com o próprio corpo - assinala

Números divulgados pelo Ministério da Saúde sedimentam a análise do pesquisador. Em 1996, no Brasil, o índice de heterossexuais com mais de 13 anos contaminados pelo HIV era da ordem de 22,4% do total de 16.938 infectados.

Até junho deste ano, esse percentual saltou para 45,7%. Entre os homo/bissexuais houve uma redução de 32,5% (em 1996) para 27,4% (junho de 2008).

Preço mais alto

Garoto de programa desde 2005, Gabriel Chaves, 22 anos, afirma ser heterossexual e ter namorada. Mas assume que, quando um cliente oferece um valor maior do que o cachê estabelecido para praticar sexo sem preservativo, não pensa duas vezes:

– Tem uns que dobram ou triplicam o valor. Eu não tenho como recusar. Com mulher também é assim. Há homens que pagam mais para transar com elas no pêlo. É um risco, mas eu, por exemplo, procuro conversar antes e, aos poucos, perceber a qualidade do cliente – conta.

Gabriel não foge à regra dos barebackers e poderá fazer parte da estatística no futuro. Embora se autodenomine heterossexual, integra o grupo HSH (Homens que praticam sexo com Homens).

Há 12 anos, o percentual de HSHs infectados era de 24%. Uma década depois, em 2006, eles já somavam 41% do total de soropositivos naquele ano.

Aumento dos índices

Em 2004, a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas Sexuais do Ministério da Saúde apontou que o índice estimado de HSHs no Brasil, entre 15 a 49 anos, era da ordem de 3,2 % da população, ou cerca de 1,5 milhão de pessoas.

A partir dessa base populacional, a pesquisa calculou a taxa de incidência da Aids nesse grupo. Foram constatados 226,5 casos para cada 100 mil pessoas. Esse índice é 11 vezes maior do que o da taxa da população geral (de heteros), que é de 19,5 casos por grupo de 100 mil.

O crescimento no número de casos, sobretudo entre os homens, está relacionado ao fato de que toda uma geração, que jamais havia tido contato direto com a Aids, atingiu uma faixa etária sexualmente ativa. Bombardeados por campanhas em favor do uso do preservativo, acabaram desenvolvendo uma certa "imunidade" a elas, crendo que a doença não é um "bicho tão feito quanto pintam".

Quando remédio é desculpa para ficar doente

Difundida principalmente nos Estados Unidos (Califórnia, em primeiro lugar) e na Europa, a prática do barebacking é polêmica.

Os adeptos do bare alegam que, em função dos avanços atuais relacionados ao tratamento anti-HIV e à facilidade de acesso a ele, caso sejam contaminados não perderão em qualidade de vida.

- Temos os anti-retrovirais, medicamentos que inibem a reprodução do vírus e potencializam o sistema imunológico. Isso impede o surgimento de enfermidades oportunistas (Aids) - ressaltam.

Eles ainda defendem como ponto positivo para não abrir mão da prática o fato de a ansiedade e a angústia frente ao possível contágio pelo HIV desaparecerem, assim que se descobrem soropositivos. Isso é sinônimo de libertação, pois que o uso do preservativo passa a ser descartado.

O barebacker está à procura da relação sexual mais livre, com maior contato íntimo e afetivo. As conseqüências, no entanto, relacionadas à prática nem sempre se traduzem de forma positiva, como supõem seus praticantes. Anti-retrovirais não são os únicos responsáveis pela qualidade de vida de um HIV.

Quando expostos, de forma freqüente, a relações de alto risco, os soropositivos podem sofrer o que se chama de “recontágio”, uma nova contaminação, acarretando aumento da carga viral e desencadeamento de queda de imunidade e sintomas.

Além disso, têm grande chance de contrair outras DSTs, tais com sífilis. Isso, certamente, dificultará o tratamento.

“Montar a pêlo”, a tradução literal para barebacking, seria uma lenda urbana se não houvesse comprovação real da prática.

A terrível tendência de comportamento existe. Há, de fato, homens, na maioria homossexuais, que querem ser infectados pelo HIV e outros que têm o prazer de ajudá-los a tornar esse desejo realidade.

Psicólogos, antropólogos e sociólogos teorizam sobre distúrbios de comportamento ou disfunção social. Para o resto do mundo, não passam de estúpidos ou patéticos.

Por: Vagner Fernandes, Jornal do Brasil

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